Houve um dia em que tudo parou — e foi nesse dia que tudo começou. Não foi um dia de catástrofe externa, embora também os houvesse. Não foi um dia de notícia trágica, embora a vida me tivesse trazido várias. Foi um dia comum, daqueles em que o sol entra pela janela como se nunca tivesse entrado antes, e a luz tem aquela qualidade densa, líquida, que os pintores antigos chamavam ouro de manhã, e os místicos chamavam graça sem causa, e os monges zen chamavam, simplesmente, agora. Foi um sábado, talvez fosse domingo, não interessa o nome do dia: o que interessa é que dentro de mim parou um relógio que andava há muito a correr sem destino. E quando esse relógio parou, ouvi pela primeira vez um silêncio que tinha estado sempre lá, à minha espera, paciente como mãe.
Nota editorial
Natureza do texto: Poema em prosa (abertura).
Fonte: descrição editorial do livro na Amazon (texto do próprio livro).
Texto reproduzido sem alterações.