
A Grande Reconfiguração da Direita Portuguesa · Band 1
2026 · 772 Seiten

Peça de Teatro em 3 Actos
Levo à Cena a Peça de Teatro : “O CIRCO DOS FACHOS” , Edição integral + libreto · três actos
Fui menino num país onde se aprendia a baixar a voz antes de aprender a ler. Havia um mapa na parede da escola, um retrato por cima do quadro e uma regra que ninguém escrevia porque toda a gente sabia: não se pergunta. Depois abriu-se uma janela, em Abril, e eu estava lá, e vi gente adulta a rir na rua sem olhar para trás. Nunca mais me esqueci daquele riso: é de lá que vem o livro, e é de lá que vem esta peça.
Primeiro escrevi os poemas. Dizem o que dói e dizem-no de frente, e têm essa honestidade e essa limitação: quem concorda comove-se, quem não concorda fecha o livro.
— O Circo dos Fachos
Originaltext auf Portugiesisch.
Quelle: Verlagsbeschreibung der Ausgabe auf Portugiesisch (Amazon).
Beschreibung aus der Originalausgabe, auf Portugiesisch. Der Text schließt an die Leseprobe an.
Faltava-me a outra ferramenta, a que entra pela porta do riso — a única que ninguém guarda, porque nenhum regime conseguiu ainda pôr um polícia à porta de uma gargalhada. A sátira é a forma certa não por ser mais suave, mas por ser mais dura de aguentar: obriga o retratado a escolher entre negar e reconhecer-se, e as duas lhe ficam mal.
Nenhuma personagem tem nome real, e não é por prudência jurídica — é por ofício. Os indivíduos passam; os tipos ficam. Se eu escrever o nome de um homem por cima de uma personagem, dou à peça uma data de validade — a da carreira dele: no dia em que se reformar, a obra vai atrás. Nomear um tipo é o contrário: é armá-la para durar. O Domador que mede as palmas ao cronómetro já cá esteve com outra cara e há-de voltar com outra dentição; o senhor da pasta que nunca desce à pista é mais velho do que eles e não morre. E quanto a reconhecerem-se, não é comigo: quem for retratado reconhece-se sozinho, melhor do que eu o saberia apontar. Foi sempre assim, de Aristófanes, que pôs em cena um demagogo sem lhe pedir a certidão, a Gil Vicente, que embarcou meia corte numa barca sem escrever uma alcunha.
E agora o que verdadeiramente importa, e peço que se leia devagar: os episódios são todos verdadeiros. Todos. A avença mensal paga a quem assina as licenças. As oito formulações datadas da mesma linha imóvel. A lista de nomes de crianças lida em voz alta para provar uma coisa que os nomes não provam. A máquina de classificar comprada a uma casa que até há doze anos cortava cabelo, os agrafos como explicação oficial do colapso, e a professora falecida em Fevereiro e convocada em Junho — que compareceu, porque nunca faltou a nada. Os insultos ditos de microfone desligado a uma mulher cega. A mulher grávida que morreu e a quem se atribuiu, em dois dias, a culpa de ter morrido. As flores encarnadas retiradas da tribuna. Nada disto é invenção minha, e eu não teria coragem de inventar metade.
A alegoria é a lente, não o esconderijo. Troquei os gabinetes por um barracão e as bancadas por uma pista, e ganhei nitidez: vê-se melhor a engrenagem quando está pintada de dourado e tem manivela à vista. Quem sair da sala convencido de que aquilo é só um circo terá visto um espectáculo menor, e terá a sorte de dormir bem. Os outros que se governem.
ADVERTÊNCIA:
Todas as personagens desta peça são tipos alegóricos e invenções do autor. Nenhuma representa nem pretende identificar pessoa real, viva ou falecida. Nenhum partido, jornal, empresa, tribunal, escola ou instituição aqui nomeado existe fora deste texto: a Grande Companhia Nacional, a casa «Barbearia e Sistemas, Limitada», os «Bonança e Bonança, Peritos de Urgência» e o Regulamento da Casa foram feitos de raiz para o palco.
Mas os acontecimentos aconteceram. As datas, os números, os valores contratuais, as contagens e as frases ditas em público que se ouvem em cena estão documentados, e as fontes acompanham esta edição. Onde uma figura de trapos diz uma frase boa de mais para ser verdadeira, é porque é verdadeira: foi dita, com estas palavras, por alguém que não é esta personagem.
Qualquer semelhança é a que o espectador quiser encontrar. E se a encontrar, o problema não é do autor.
Ausgabe auf Portugiesisch:
Levo à Cena, a peça de Teatro
339 SeitenKindle und Taschenbuch

2026 · 772 Seiten

2026 · 818 Seiten

