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Capa do livro «O Caminho Continua»

O Caminho Continua, Volume 2

O Dia em Que Tudo Parou, Volume 2

«Não somos donos do vento, mas somos responsáveis pela forma como orientamos a vela.»

Do livro — citação seleccionada em «A Obra Comentada»
Páginas
500 páginas
ISBN
ISBN 979-8180442956
Primeira publicação
Formatos
Kindle, capa mole e capa dura
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Excerto

Há uma hora estranha, ao fim da subida, em que o caminhante chega ao cume e descobre que o cume não era o fim. Imaginara-o como um lugar de chegada, uma varanda definitiva sobre o mundo, e durante muito tempo caminhou apenas para lá chegar. Mas eis que, ao pisar o ponto mais alto, vê outra coisa: o horizonte recuou, abriram-se vales que não conhecia, e a senda, longe de terminar, desce do outro lado e continua. O cume não era uma porta fechada. Era uma soleira.

Assim termina o primeiro volume desta travessia, e assim começa o segundo. No livro anterior, percorremos juntos o terreno difícil.

— O Caminho Continua — Volume 2

Nota editorial

Fonte: descrição editorial da edição em português (Amazon).

Sobre o livro

Texto publicado com a edição em português (Amazon). O texto continua a partir do excerto.

Falámos do dia em que tudo parou — esse instante em que o chão familiar se abre debaixo dos pés e somos obrigados a olhar de frente aquilo que sempre adiámos: a impermanência de tudo o que amamos, a presença discreta do sofrimento, o medo que se esconde por baixo das nossas pressas. Aprendemos a não fugir. Aprendemos, devagar, a sentar-nos ao lado da nossa própria dor com a ternura que dispensaríamos a um amigo, a praticar essa bondade para connosco que os antigos chamavam maitri. Olhámos a vacuidade no rosto e descobrimos que ela não era um abismo, mas um espaço — o espaço onde tudo respira e nada se prende. E, por fim, vimos como da compreensão nasce naturalmente a compaixão, e como a compaixão, para ser verdadeira, tem de descer das alturas da ideia e tornar-se gesto, mão estendida, presença.

Tudo isso foi o trabalho da subida. Foi necessário derrubar ilusões, soltar pesos, atravessar a noite. Mas a queda das ilusões não é o destino — é apenas a condição. Quando o que era falso cai, o que é verdadeiro fica disponível. E o que fica, depois de tanta limpeza, é uma pergunta luminosa e quotidiana: como viver, agora? Não como sobreviver, não como suportar, mas como viver em pé, de olhos abertos, com leveza e com raiz. É a essa pergunta que este segundo volume se dedica.

Porque há uma arte de viver que não se aprende nos dias fáceis. Aprende-se depois — depois de a tempestade ter passado e nos ter ensinado o que era essencial. É a arte de habitar a manhã sem exigir que ela seja perfeita, de beber o café sem pressa de o terminar, de olhar uma árvore como se fosse a primeira vez e, ao mesmo tempo, como se a conhecêssemos desde sempre. É a sabedoria do banal, a santidade escondida do gesto repetido. Quem atravessou o sofrimento e não endureceu volta para o mundo com outros olhos: vê que o extraordinário estava, o tempo todo, dissolvido no ordinário, como o sal na água do mar.

Este volume abre, por isso, o horizonte. Falaremos de liberdade interior — essa que ninguém nos pode dar nem tirar, porque não depende das circunstâncias mas da relação que estabelecemos com elas. Falaremos de reconciliação: com o passado que não se muda, com as pessoas que não foram o que esperávamos, connosco mesmos e com as nossas imperfeições, e com a natureza, de quem nos afastámos e a quem pertencemos. Falaremos da marcha — porque a vida realizada não é um estado em que se chega e se permanece, mas um andar fiel, um pôr de um pé à frente do outro mesmo quando o caminho sobe, mesmo quando a paisagem se repete, mesmo quando ninguém nos vê caminhar.

Quero, no entanto, ser honesto contigo desde a primeira página, leitor, leitora. Não trago receitas. Desconfia de quem promete sete passos para a felicidade, de quem desenha o teu destino numa fórmula que serve para todos. A vida não cabe em fórmulas, e a felicidade não é um produto que se monte seguindo instruções. Cada ser humano é, neste sentido profundo, o artífice do seu próprio caminho. As tradições de sabedoria — o budismo que tantas vezes nos guiou, a filosofia ocidental, a poesia, a paciente escuta da ciência sobre a mente — não são mapas que substituem a viagem. São lanternas. Iluminam um trecho do chão à tua frente; o passo, esse, és sempre tu que o dás..

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Leitura crítica — «A Obra Comentada» (2026)

Leitura crítica em terceira pessoa, reproduzida de «A Obra Comentada», o catálogo comentado da obra publicado pelo próprio autor. Não se trata de uma recensão de imprensa.

O segundo volume, O Caminho Continua, assume-se como «ensaio meditativo em prosa poética» e abre com uma das mais felizes imagens do autor: o caminhante que chega ao cume e descobre que «o cume não era uma porta fechada. Era uma soleira.» Se o primeiro tomo foi a subida — derrubar ilusões, sentar-se ao lado da própria dor —, o segundo pergunta «como viver, agora?» e responde com uma arte do quotidiano: liberdade interior, reconciliação com o passado, a «sabedoria do banal». A novidade formal é dupla. Cada capítulo abre agora com uma cena narrativa em terceira pessoa — o homem que, numa madrugada de neblina, pousa o telemóvel e descobre «a escolha de escolher» — antes de passar à meditação; e o diálogo alarga-se do budismo à filosofia ocidental: Viktor Frankl e o espaço entre o estímulo e a resposta, Sartre e a condenação à liberdade, Kierkegaard e o salto. A síntese é dada numa frase de timbre marinheiro que qualquer leitor da obra estratégica do autor reconhecerá: «Não somos donos do vento, mas somos responsáveis pela forma como orientamos a vela.»

No conjunto da obra, este díptico é a pedra angular. Fornece o vocabulário (o silêncio, a presença, a impermanência), o mito pessoal (o dia da paragem) e, sobretudo, a ética: a responsabilidade como primeira escolha, a resposta contra a reacção. É impossível não ler aqui a raiz da tese XVIII do Manifesto — o estratega que aprendeu com Frankl que a última liberdade é a atitude interior é o mesmo que recusa reduzir a estratégia a cálculo. Entre os dois volumes, a passagem do ensaio à prosa poética anuncia já a deriva formal de todo o eixo: do argumento para a imagem, da tese para a soleira.

Citações do livro

  • «o cume não era uma porta fechada. Era uma soleira.»

Outras expressões do livro citadas

«ensaio meditativo em prosa poética»«como viver, agora?»«sabedoria do banal»«a escolha de escolher»

Fonte: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

Ficha técnica

Género
Ensaio
Primeira publicação
Páginas
500 (edição em português)
Formatos
E-book Kindle · Livro impresso (capa mole) · Livro impresso (capa dura)
Línguas
2 — português e inglês
ISBN
979-8180442956

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