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Excerto

A Porta que Só se Abre por Dentro

Há uma porta no coração humano cuja chave nunca esteve do nosso lado. É a porta do outro — daquele que magoámos, daquele que nos magoou, daquele que agora se cala diante da nossa pressa de absolvição. Pedir perdão é, antes de mais, aprender a parar diante dessa porta. Aprender que o nosso arrependimento, por mais sincero que seja, não obriga ninguém a abrir.

Pedir perdão não é negociar uma saída. É reconhecer, sem teatro e sem retórica, que houve um instante em que fomos menos do que aquilo que prometemos ser. É deixar cair a couraça das justificações e oferecer ao outro a única coisa que ainda nos pertence depois do dano: uma verdade nua, sem ornamentos, sem chantagem.

E quem perdoa também atravessa uma porta. Mas a sua porta é interior. Não tem o dever sagrado de a abrir. Tem o direito sagrado de ainda doer. O perdão não é uma obrigação que se reclama; é uma possibilidade que pode demorar todo o tempo de uma vida — e ainda assim ser legítima.

A humanidade começa quando alguém diz «fiz mal» sem disfarce, e outro alguém, sem negar a ferida, responde: «não quero que esta dor governe o resto da minha vida». Nesse instante, dois seres aprendem que o perdão não apaga a história — recompõe-na. Não devolve a inocência — devolve o futuro.

Nota editorial

Natureza do texto: Poema em prosa / texto de abertura (excerto).

Fonte: descrição editorial do livro na Amazon (texto do próprio livro).

Texto reproduzido sem alterações.