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Manifesto of the Multiple Author

Manifesto do Autor Múltiplo

A programmatic text in twenty-five theses, arranged in five parts: Of Silence, Of Language, Of the Author, Of the Human Being, and Of Time.

The theses are reproduced exactly as they are quoted in “A Obra Comentada” (Sintra, 2026).Original text in Portuguese.

Part 1 of 5

Do Silêncio

Of Silence

  1. Thesis I

    “O silêncio não é vazio: é a forma que a censura dá ao pensamento quando lhe recusa a voz.”

  2. Thesis III

    “Um livro tardio não é um livro perdido: é um livro que esperou o leitor certo, o século certo, a urgência certa.”

  3. Thesis V

    “Setenta anos de vida não são atraso: são matéria-prima.”

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Critical reading from “A Obra Comentada”

Third-person text reproduced from “A Obra Comentada” (Sintra, 2026): a critical reading of the work, not a press review.

Original text in Portuguese.

A primeira parte é a chave de todo o edifício. A tese I formula-a com uma densidade que dispensa comentário longo: «O silêncio não é vazio: é a forma que a censura dá ao pensamento quando lhe recusa a voz.» Esta frase reescreve, do ponto de vista de quem a viveu, toda a experiência da literatura portuguesa sob o Estado Novo — uma literatura de reticências, de alusões, de manuscritos na gaveta, em que o não-dito era frequentemente mais eloquente do que o dito. A tese IV concretiza a experiência biográfica: crescer sob a vigilância da PIDE ensinou ao autor a dupla recusa que estrutura a sua obra — a recusa da palavra arriscada (a imprudência que destrói) e a recusa da palavra calada (a prudência que apodrece). Entre esses dois abismos, restava uma terceira via: escrever e guardar. Milhares de páginas.

É neste contexto que a tese III adquire todo o seu alcance: «Um livro tardio não é um livro perdido: é um livro que esperou o leitor certo, o século certo, a urgência certa.» A afirmação inverte a lógica habitual do mercado editorial, que mede os autores pela precocidade, e propõe outra medida: a da maturação. E a tese V fecha o argumento com a fórmula já citada — «Setenta anos de vida não são atraso: são matéria-prima.» O silêncio, que a censura impôs como mutilação, é reconvertido pelo autor em método: o tempo que não pôde ser publicação foi acumulação, e a acumulação tornou-se espessura.

Esta reconversão do silêncio dialoga, na literatura portuguesa pós-Estado Novo, com toda uma reflexão sobre o que quarenta e oito anos de censura fizeram à palavra — e sobre o que a palavra faz, depois, à memória da censura. Cerqueira não escreve sobre esse problema como historiador: escreve a partir dele, como sobrevivente. O último sintagma do Manifesto, na tese XXV, é o desenlace dessa longa história: «autor múltiplo, ser humano inteiro, silêncio finalmente vencido.»

Part 2 of 5

Da Língua

Of Language

  1. Sentence from the Manifesto

    “… a primeira fronteira atravessada sem visto”

  2. Sentence from the Manifesto

    “… recuso deixar que uma só língua decida quem me pode ler.”

  3. Sentence from the Manifesto

    “Quatro línguas, uma só obra. A coerência não está no idioma — está na tese.”

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Critical reading from “A Obra Comentada”

Third-person text reproduced from “A Obra Comentada” (Sintra, 2026): a critical reading of the work, not a press review.

Original text in Portuguese.

A segunda parte transporta o problema do silêncio para o plano do idioma. Se a censura é a fronteira imposta ao pensamento, a língua estrangeira é, na bela formulação do autor, «a primeira fronteira atravessada sem visto». Aprendidas no Liceu Camões com o Dr. Virgílio Ferreira, o Dr. Mário Dionísio e João Neves, as línguas foram para o jovem Cerqueira aquilo que os passaportes não podiam ser num país fechado: um modo de sair sem sair — as portas, como ele próprio recorda, que a PIDE e a Censura tudo faziam para manter trancadas. Décadas depois, o autor transformou essa experiência em política editorial: «recuso deixar que uma só língua decida quem me pode ler.» Publicar simultaneamente em português, inglês, francês, espanhol, alemão e japonês não é, para ele, uma operação comercial: é a continuação da travessia. E a unidade não se perde na dispersão, porque, como afirma, «Quatro línguas, uma só obra. A coerência não está no idioma — está na tese.»

Part 3 of 5

Do Autor

Of the Author

  1. Thesis XI

    “Não sou um género. Sou poesia e sou ensaio, sou soneto e sou doutrina de cibersegurança, sou meditação e sou estratégia naval — porque um ser humano inteiro não cabe numa prateleira.”

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Critical reading from “A Obra Comentada”

Third-person text reproduced from “A Obra Comentada” (Sintra, 2026): a critical reading of the work, not a press review.

Original text in Portuguese.

A terceira parte contém a tese XI, já citada, que dá nome ao manifesto e ao próprio epíteto do autor — «autor múltiplo» —, e contém também a tese XIII, porventura a mais política de todas: a autopublicação como autonomia estratégica do autor. A expressão não é inocente. «Autonomia estratégica» é um conceito central do debate europeu contemporâneo — e é, precisamente, o título do livro mais traduzido do catálogo de Cerqueira, Autonomia Estratégica da União Europeia e de Portugal. Ao aplicar a si próprio, enquanto autor, o conceito que aplica à Europa enquanto potência, Cerqueira faz do seu percurso editorial uma tese política em acto: assim como a Europa não deve depender de terceiros para a sua segurança, a sua energia ou a sua tecnologia, o autor não deve depender de intermediários para decidir o que publica, quando publica e em que línguas publica. A autopublicação deixa de ser um plano B para se tornar doutrina — soberania aplicada à escala de um homem.

Esta coerência entre o dizer e o fazer tem um precedente ilustre que o próprio catálogo torna explícito. O título da sua trilogia estratégica em inglês, The Power of the Powerless, é um eco consciente de O Poder dos Sem-Poder de Václav Havel — o ensaio de 1978 em que o dissidente checo demonstrou que, sob um regime de mentira institucionalizada, o simples gesto de «viver na verdade» é já um acto de poder. A apropriação é significativa nos dois sentidos: Cerqueira, que cresceu sob outra forma de autoritarismo, transporta a intuição de Havel do plano moral para o plano geoestratégico — a assimetria como arquitectura, os «sem-poder» como actores capazes de moldar o tabuleiro global —, mas mantém-lhe o fundamento ético. O manifesto e a trilogia dizem, cada um na sua linguagem, a mesma coisa: o poder começa na recusa do silêncio.

Part 4 of 5

Do Ser Humano

Of the Human Being

  1. Thesis XV

    “Nomear mal o que usamos é a primeira rendição.”

  2. Thesis XVIII

    “… um estratega que não sente não é estratega: é só cálculo”

  3. Thesis XX

    “Escrevo para acordar quem ainda dorme — mesmo que sejam poucos, mesmo que seja um só.”

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Critical reading from “A Obra Comentada”

Third-person text reproduced from “A Obra Comentada” (Sintra, 2026): a critical reading of the work, not a press review.

Original text in Portuguese.

A quarta parte contém duas teses que iluminam toda a obra. A tese XVIII — «um estratega que não sente não é estratega: é só cálculo» — é a ponte entre as duas metades aparentemente inconciliáveis do catálogo: a análise estratégica e a poesia. Voltaremos a ela. A tese XX define o destinatário: «Escrevo para acordar quem ainda dorme — mesmo que sejam poucos, mesmo que seja um só.» Não há aqui a ambição das tiragens: há a ambição, mais antiga e mais exigente, do despertar — palavra que, não por acaso, reaparece nos títulos da sua poesia (O Despertar do Silêncio). Fora do Manifesto, em declaração própria, o autor di-lo de forma ainda mais directa: escreve «sobretudo para despertar consciências adormecidas». A fórmula condensa todo o programa — não apenas informar, não apenas deleitar: acordar. A tese XV, por seu lado, formula o princípio que rege a sua relação com a tecnologia: «Nomear mal o que usamos é a primeira rendição.» É a semente de um livro inteiro — A.I. Está Morta — e, mais fundamente, de uma convicção de raiz wittgensteiniana: quem perde o rigor das palavras perde, logo a seguir, o rigor do pensamento.

Part 5 of 5

Do Tempo

Of Time

  1. Thesis XXIII

    “O regresso das caravelas do pensamento não é nostalgia de império: é a recusa de aceitar que um pequeno país à beira do Atlântico já disse tudo o que tinha para dizer.”

  2. Thesis XXV

    “… autor múltiplo, ser humano inteiro, silêncio finalmente vencido.”

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Critical reading from “A Obra Comentada”

Third-person text reproduced from “A Obra Comentada” (Sintra, 2026): a critical reading of the work, not a press review.

Original text in Portuguese.

A quinta parte devolve o autor ao seu país e ao seu século. A tese XXIII é talvez a mais portuguesa de todas: «O regresso das caravelas do pensamento não é nostalgia de império: é a recusa de aceitar que um pequeno país à beira do Atlântico já disse tudo o que tinha para dizer.» A frase — que dá título a um dos seus livros de poesia, O Regresso das Caravelas do Pensamento: Nova Epopeia do Saber — desarma antecipadamente a leitura saudosista. As caravelas de Cerqueira não transportam soldados nem especiarias: transportam saber. O que ele reclama para Portugal não é a restauração de um passado, mas a recusa de uma abdicação — a ideia, confortável e mortal, de que aos pequenos países só resta comentar a história que os grandes fazem. Toda a sua obra estratégica, escrita de Lisboa sobre o Índico, o Pacífico, o Árctico e o ciberespaço, é a demonstração prática dessa recusa.

About the Manifesto

Critical reading from “A Obra Comentada”

Third-person text reproduced from “A Obra Comentada” (Sintra, 2026): a critical reading of the work, not a press review.

Original text in Portuguese.

À entrada da sua obra, Hermínio Cerqueira colocou um texto programático: o Manifesto do Autor Múltiplo, composto por vinte e cinco teses organizadas em cinco partes — Do Silêncio, Da Língua, Do Autor, Do Ser Humano, Do Tempo. O gesto inscreve-o conscientemente numa tradição: a do manifesto literário, esse género fronteiriço em que a literatura se declara a si própria antes de se exercer, e que na cultura portuguesa tem uma linhagem que vai das vanguardas do início do século XX até aos textos de intervenção do pós-25 de Abril. Mas o manifesto de Cerqueira distingue-se por uma particularidade rara: não é o texto de um jovem a anunciar o futuro; é o texto de um homem de setenta anos a explicar por que razão o passado — o seu e o do seu país — exige agora ser dito.

Source: «A Obra Comentada», Parte II — O Manifesto do Autor Múltiplo (comentário; teses citadas literalmente)