

A Cintilação das Almas
«um pátio mudo, simples, abundante, / onde o afecto sem nome sai distante / de toda a hierarquia interior»
- Páginas
- 126 páginas
- ISBN
- ISBN 979-8195988906
- Primeira publicação
- Formatos
- Kindle e capa mole
Excerto
Houve um afeto antes das palavras, e por isso ainda nos falta o nome para o nomear. Os gregos, que tudo viam com clareza terrena, ergueram três templos onde o coração se podia ajoelhar: o do desejo que arde, o do sangue que se reconhece, o do amor que se entrega sem retorno. Mas entre estes três templos abria-se um pátio sem teto, e era ali, sob o céu sem inscrição, que algumas almas se encontravam.
Nem éramos amantes, nem éramos irmãos, nem éramos santos a amar a humanidade inteira. Éramos isto que ainda não tem palavra: dois rostos voltados na mesma direção, dois pensamentos que se alongavam como dois rios que descobrem o mesmo mar.
— A Cintilação das Almas
Nota editorial
Fonte: descrição editorial da edição em português (Amazon).
Sobre o livro
Texto publicado com a edição em português (Amazon). O texto continua a partir do excerto.
A língua, sempre tarde, ainda não se inclinou sobre nós para nos batizar.
Os modernos vieram piorar a indigência. Decretaram, com a paixão romântica, que o sentimento mais alto era o que arde até partir. Reduziram o coração a uma só estrela e apagaram os outros lumes do firmamento. E quem não amava daquele modo passou a viver com a suspeita de que não amava: como se o que se sentia em paz, em sóbria fidelidade, sem urgência e sem ciúme, fosse menor do que a tempestade...
Índice de edições
Edição em português:
A Cintilação das Almas
126 páginasKindle e capa mole
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Leitura crítica — «A Obra Comentada» (2026)
A Cintilação das Almas aplica a arquitectura de Perdoar — dez prosas, cem sonetos, aqui agrupados em dez «Constelações» — a um tema raro na tradição lírica portuguesa: a amizade, ou melhor, «a vigília dos afectos e a presença que não morre». O ponto de partida é uma lacuna léxica que o livro transforma em programa: entre os três nomes gregos do amor — eros, filia, ágape — há «um pátio mudo, simples, abundante, / onde o afecto sem nome sai distante / de toda a hierarquia interior». A primeira constelação inteira gira sobre esse vazio do dicionário: «Procurei no léxico um lugar / onde coubesse o que entre nós cintilava», confessa o quinto soneto, para concluir com a mais bela renúncia à nomeação: «basta-me em ti, basta-te em mim, viver».
As linhas de leitura desenham um pequeno tratado fenomenológico do laço: o limiar do encontro (o gesto fortuito, o riso simultâneo, o livro emprestado «como senha»), o respeito pelo mistério do outro (a porta entreaberta, o limiar não pisado, «o pudor como afecto»), a liberdade como matéria do vínculo (o pacto sem cláusulas, «escolher de novo cada manhã»), e a crítica bem-humorada da «hierarquia romântica como gaiola» — a constelação sétima chega a falar da «deposição do trono» do amor romântico e do «casamento das almas» que a amizade realiza sem contrato. O verso-tese do conjunto está no segundo soneto: «o verbo amar / é deixar livre o outro na sua mão». Há ecos perceptíveis de Montaigne e da filia aristotélica, mas filtrados por uma sensibilidade bíblica — Adão nomeia as feras e recebe Eva, mas o Éden fecha-se, sugere um soneto audacioso, porque no paraíso «não tinha cabido / um afecto sem corpo nem mandado»: nem o próprio Deus conhecia ainda a amizade.
Formalmente, o livro confirma o classicismo do autor: soneto decassilábico de corte camoniano, com a volta reflexiva nos tercetos quase sempre aberta por um «talvez» que é a sua assinatura — a hipótese em vez do dogma, mesmo em verso. No mapa da obra, A Cintilação das Almas faz par com Perdoar: um canta o laço ferido, o outro o laço gratuito; ambos recusam reduzir o afecto a função ou contrato. E é difícil não ler o livro à luz da tese XVIII: numa obra que tanto pensa alianças, pactos e traições entre Estados, este volume estuda a única aliança que não assenta em interesse — «o pacto sem cláusulas». O estratega que conhece o preço de tudo escreve aqui sobre a única coisa que não tem preço; e é por sabê-lo que o resto da obra nunca confunde aliança com amizade, nem cálculo com lealdade.
Citações do livro
«a vigília dos afectos e a presença que não morre»
«Procurei no léxico um lugar / onde coubesse o que entre nós cintilava»
«basta-me em ti, basta-te em mim, viver»
«o verbo amar / é deixar livre o outro na sua mão»
«não tinha cabido / um afecto sem corpo nem mandado»
Outras expressões do livro citadas
«Constelações»«como senha»«o pudor como afecto»«escolher de novo cada manh㻫hierarquia romântica como gaiola»«deposição do trono»«casamento das almas»«talvez»«o pacto sem cláusulas»
Fonte: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico
Ficha técnica
- Género
- Poesia
- Eixo da obra
- Poesia, Espiritualidade e Meditação
- Primeira publicação
- Páginas
- 126 (edição em português)
- Formatos
- E-book Kindle · Livro impresso (capa mole)
- Línguas
- 1 — português
- ISBN
- 979-8195988906



