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Excerpt

Houve um afeto antes das palavras, e por isso ainda nos falta o nome para o nomear. Os gregos, que tudo viam com clareza terrena, ergueram três templos onde o coração se podia ajoelhar: o do desejo que arde, o do sangue que se reconhece, o do amor que se entrega sem retorno. Mas entre estes três templos abria-se um pátio sem teto, e era ali, sob o céu sem inscrição, que algumas almas se encontravam.

Nem éramos amantes, nem éramos irmãos, nem éramos santos a amar a humanidade inteira. Éramos isto que ainda não tem palavra: dois rostos voltados na mesma direção, dois pensamentos que se alongavam como dois rios que descobrem o mesmo mar.

— A Cintilação das Almas

Original text in Portuguese.

Editorial note

Source: publisher’s description of the Portuguese edition (Amazon).

About the book

Description from the original edition, in Portuguese. The text continues from the excerpt.

A língua, sempre tarde, ainda não se inclinou sobre nós para nos batizar.

Os modernos vieram piorar a indigência. Decretaram, com a paixão romântica, que o sentimento mais alto era o que arde até partir. Reduziram o coração a uma só estrela e apagaram os outros lumes do firmamento. E quem não amava daquele modo passou a viver com a suspeita de que não amava: como se o que se sentia em paz, em sóbria fidelidade, sem urgência e sem ciúme, fosse menor do que a tempestade...

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Critical reading — “A Obra Comentada” (2026)

A third-person critical reading, reproduced from “A Obra Comentada,” the annotated catalog of the work published by the author himself. It is not a press review.

Original text in Portuguese.

A Cintilação das Almas aplica a arquitectura de Perdoar — dez prosas, cem sonetos, aqui agrupados em dez «Constelações» — a um tema raro na tradição lírica portuguesa: a amizade, ou melhor, «a vigília dos afectos e a presença que não morre». O ponto de partida é uma lacuna léxica que o livro transforma em programa: entre os três nomes gregos do amor — eros, filia, ágape — há «um pátio mudo, simples, abundante, / onde o afecto sem nome sai distante / de toda a hierarquia interior». A primeira constelação inteira gira sobre esse vazio do dicionário: «Procurei no léxico um lugar / onde coubesse o que entre nós cintilava», confessa o quinto soneto, para concluir com a mais bela renúncia à nomeação: «basta-me em ti, basta-te em mim, viver».

As linhas de leitura desenham um pequeno tratado fenomenológico do laço: o limiar do encontro (o gesto fortuito, o riso simultâneo, o livro emprestado «como senha»), o respeito pelo mistério do outro (a porta entreaberta, o limiar não pisado, «o pudor como afecto»), a liberdade como matéria do vínculo (o pacto sem cláusulas, «escolher de novo cada manhã»), e a crítica bem-humorada da «hierarquia romântica como gaiola» — a constelação sétima chega a falar da «deposição do trono» do amor romântico e do «casamento das almas» que a amizade realiza sem contrato. O verso-tese do conjunto está no segundo soneto: «o verbo amar / é deixar livre o outro na sua mão». Há ecos perceptíveis de Montaigne e da filia aristotélica, mas filtrados por uma sensibilidade bíblica — Adão nomeia as feras e recebe Eva, mas o Éden fecha-se, sugere um soneto audacioso, porque no paraíso «não tinha cabido / um afecto sem corpo nem mandado»: nem o próprio Deus conhecia ainda a amizade.

Formalmente, o livro confirma o classicismo do autor: soneto decassilábico de corte camoniano, com a volta reflexiva nos tercetos quase sempre aberta por um «talvez» que é a sua assinatura — a hipótese em vez do dogma, mesmo em verso. No mapa da obra, A Cintilação das Almas faz par com Perdoar: um canta o laço ferido, o outro o laço gratuito; ambos recusam reduzir o afecto a função ou contrato. E é difícil não ler o livro à luz da tese XVIII: numa obra que tanto pensa alianças, pactos e traições entre Estados, este volume estuda a única aliança que não assenta em interesse — «o pacto sem cláusulas». O estratega que conhece o preço de tudo escreve aqui sobre a única coisa que não tem preço; e é por sabê-lo que o resto da obra nunca confunde aliança com amizade, nem cálculo com lealdade.

Quotations from the book

  • “a vigília dos afectos e a presença que não morre”

  • “Procurei no léxico um lugar / onde coubesse o que entre nós cintilava”

  • “basta-me em ti, basta-te em mim, viver”

  • “o verbo amar / é deixar livre o outro na sua mão”

  • “não tinha cabido / um afecto sem corpo nem mandado”

Other expressions quoted from the book

“Constelações”“como senha”“o pudor como afecto”“escolher de novo cada manh㔓hierarquia romântica como gaiola”“deposição do trono”“casamento das almas”“talvez”“o pacto sem cláusulas”

Source: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

Book details

Genre
Poetry
First published
Pages
126 (Portuguese edition)
Formats
Kindle e-book · Paperback
Languages
1 — Portuguese
ISBN
979-8195988906

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