A perda cria um estranho dentro de quem permanece. O eu deixa de coincidir consigo mesmo.
Desde que ficaste do outro lado de tudo, passou a viver comigo um inquilino que não convidei: o homem do espelho. Cruzo-o ao acordar, ao lavar o rosto, ao passar distraído pelo corredor — e cada vez o conheço menos. Tem os meus traços, repete os meus gestos com um atraso mínimo, mas há nos seus olhos uma pergunta que os meus já não sabem responder. Partilhamos a casa sem nos falarmos, dois estranhos com a mesma cara. Antes, o espelho devolvia-me alguém inteiro. Agora devolve-me este hóspede pálido que herdou o meu nome e não sabe o que fazer com ele.
Redactionele noot
Aard van de tekst: Prozagedicht (opening).
Bron: uitgeversbeschrijving van het boek op Amazon (tekst uit het boek zelf).
Tekst ongewijzigd weergegeven. Oorspronkelijke tekst in het Portugees.