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Cover des Buches „O Reino está Dentro e Fora“

O Reino está Dentro e Fora

„paciente como mãe, no chão do peito onde o ouro sempre se escondeu“

Aus dem Buch – Zitat ausgewählt in „A Obra Comentada“
Seiten
458 Seiten
ISBN
ISBN 979-8198499058
Erstveröffentlichung
Formate
Kindle und Taschenbuch

Über das Buch

Beschreibung aus der Originalausgabe, auf Portugiesisch.

Aos que ainda perguntam.
E aos que aprenderam a calar.
« O Reino está dentro de vós e está fora de vós.
Quando vos conhecerdes a vós mesmos,
então sereis conhecidos. »
— Evangelho de Tomé, logion 3 (NHC II,2)
« Que este livro chegue até ti num momento
em que o teu coração esteja pronto. »
— ressonância de O Despertar do Silêncio

Houve um dia em que tudo parou — e foi nesse dia que tudo começou. Não foi um dia de catástrofe externa, embora também os houvesse. Não foi um dia de notícia trágica, embora a vida me tivesse trazido várias. Foi um dia comum, daqueles em que o sol entra pela janela como se nunca tivesse entrado antes, e a luz tem aquela qualidade densa, líquida, que os pintores antigos chamavam ouro de manhã, e os místicos chamavam graça sem causa, e os monges zen chamavam, simplesmente, agora. Foi um sábado, talvez fosse domingo, não interessa o nome do dia: o que interessa é que dentro de mim parou um relógio que andava há muito a correr sem destino. E quando esse relógio parou, ouvi pela primeira vez um silêncio que tinha estado sempre lá, à minha espera, paciente como mãe.

Não foi medo, embora houvesse medo. Não foi vazio, embora houvesse vazio. Foi, sobretudo, reconhecimento — como quem volta a uma casa onde nasceu, depois de longos anos no estrangeiro, e descobre que tudo está como deixara, e que era ele que tinha mudado de língua, e que precisava de reaprender a respirar no idioma da infância. Sentei-me na cadeira de sempre, na mesa de sempre, com o copo de sempre, e o mundo, esse mundo que me parecia conhecido até ao detalhe das pequenas frustrações, abriu-se de repente como uma flor lenta. As paredes ainda eram paredes. Mas tinham uma espessura nova, como se cada tijolo tivesse uma memória sua, e eu, pela primeira vez em décadas, tivesse silêncio interior suficiente para a escutar.

Foi nesse dia que entendi, sem palavras ainda, aquilo que viria a procurar dizer durante anos com palavras desajeitadas: que a vida, esta vida que tenho, não é o cenário de uma peça que estou a representar mal. É o próprio coração de um mistério que me convoca a habitar. Que o vazio que sentia não era a ausência de um Deus distante; era o sinal de que um Deus íntimo estava a abrir, dentro de mim, o seu espaço. Que aquilo a que chamava aborrecimento era apenas o nome que dava ao silêncio quando não tinha coragem de o escutar. E que tudo — absolutamente tudo, o pão e a faca, a chuva e a manhã, o rosto da amada e o rosto do estranho que passa, a luz que entra e a sombra que se esconde — era convite, era chamamento, era oração a haver-se sem que ninguém precisasse de a recitar.

Os antigos diziam que o Reino está dentro e está fora. Não compreendi a frase até esse dia. Achei sempre que era uma frase elegante, daquelas que se citam em sermões cuidados, mas que pertenciam a uma geografia espiritual que me era exterior. Naquele sábado, ou era domingo, percebi que era uma frase descritiva, não retórica. Que o Reino, esse Reino que os Evangelhos prometiam e os místicos cantavam e os filósofos questionavam, não era um lugar. Era um modo de estar nos lugares. Que se eu o procurasse no céu, as aves chegariam primeiro; que se o procurasse no mar, os peixes chegariam primeiro; mas que se eu parasse, simplesmente parasse, ele estava aqui, dentro do peito que respira e fora dele, na xícara de café que arrefece sobre a mesa, na poeira que dança no raio de sol, na voz longínqua de uma criança a rir num pátio que não vejo...

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Kritische Lektüre – „A Obra Comentada“ (2026)

Eine kritische Lektüre in der dritten Person, übernommen aus „A Obra Comentada“, dem vom Autor selbst veröffentlichten kommentierten Werkverzeichnis. Es handelt sich nicht um eine Pressekritik.

Originaltext auf Portugiesisch.

Se Os Evangelhos Silenciados é a catedral ensaística, O Reino Está Dentro e Fora é o seu claustro lírico: três centenas de poemas em prosa organizados em duas partes — «Dentro de Vós» e «Fora de Vós» — sob a epígrafe do logion 3 do Evangelho de Tomé: «O Reino está dentro de vós e está fora de vós». A dedicatória define de imediato o campo de tensão do livro: «Aos que ainda perguntam. E aos que aprenderam a calar.» O pórtico retoma a cena fundadora de toda a obra de Cerqueira — o dia em que tudo parou —, agora reescrita em registo místico: «Houve um dia em que tudo parou — e foi nesse dia que tudo começou». O sujeito descobre que «o vazio que sentia não era a ausência de um Deus distante; era o sinal de que um Deus íntimo estava a abrir, dentro de mim, o seu espaço», e que o tesouro esperava, «paciente como mãe, no chão do peito onde o ouro sempre se escondeu».

O livro assume dois «corpos de texto» confessados: os apócrifos (Tomé, Filipe, Maria Madalena) e os ensinamentos contemplativos do Oriente, tal como foram trabalhados em O Despertar do Silêncio. Daí a arquitectura singular dos capítulos, quinze poemas cada, que alternam ciclos bíblicos (o despertar da pergunta, a luz originária, a câmara nupcial do Evangelho de Filipe, Maria Madalena no jardim) com ciclos de matriz budista (maitri, o medo como portal, o kintsugi, o tonglen, a impermanência «como beijo»). É talvez o livro mais sincrético do autor, e o mais programático no seu ecumenismo: «Encontro nas Quatro Nobres Verdades a mesma coisa que encontro no Sermão da Montanha». As tradições, diz, «no seu cume, encontram-se; é só nas suas saias que se separam».

A forma é o poema em prosa longo, de respiração agostiniana, dirigido a um «tu» que é sempre o leitor concreto — herança directa das Confissões, que o livro cita como modelo de «fé interrogativa». Cada peça parte de uma pergunta bíblica (Onde estás? Quem dizem os homens que eu sou? O que queres que eu te faça?) e desdobra-a em meditação existencial, com uma convicção repetida como um baixo contínuo: «quem pergunta como quem ama está já, sem o saber, dentro da resposta». Do lado de Tomé vem a mais bela linha de leitura do conjunto, a glosa do «não saboreará a morte»: «não saboreará a morte aquele que tiver encontrado, dentro de si, o lugar onde a morte nunca chegou». No mapa da obra completa, este livro é a charneira perfeita entre o ensaio teológico e a lírica meditativa — e a prova de que, para este autor, a espiritualidade não é tema entre temas, mas método: a mesma atenção que noutros livros disseca a desinformação digital aqui se ajoelha diante de um logion copta. O estratega sente; por isso não é só cálculo.

Zitate aus dem Buch

  • „o vazio que sentia não era a ausência de um Deus distante; era o sinal de que um Deus íntimo estava a abrir, dentro de mim, o seu espaço“

  • „O Reino está dentro de vós e está fora de vós“

  • „Aos que ainda perguntam. E aos que aprenderam a calar.“

  • „Houve um dia em que tudo parou — e foi nesse dia que tudo começou“

  • „Encontro nas Quatro Nobres Verdades a mesma coisa que encontro no Sermão da Montanha“

  • „no seu cume, encontram-se; é só nas suas saias que se separam“

  • „quem pergunta como quem ama está já, sem o saber, dentro da resposta“

  • „não saboreará a morte aquele que tiver encontrado, dentro de si, o lugar onde a morte nunca chegou“

Weitere zitierte Wendungen aus dem Buch

„Dentro de Vós“„Fora de Vós“„corpos de texto“„como beijo“„tu“„fé interrogativa“„não saboreará a morte“

Quelle: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

Bibliografische Angaben

Gattung
Lyrik
Erstveröffentlichung
Seiten
458 (Ausgabe auf Portugiesisch)
Formate
Kindle-E-Book · Taschenbuch
Sprachen
2 — Portugiesisch und Englisch
ISBN
979-8198499058

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