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Excerpt

O livro começou por uma pergunta que não consegui arrumar: quem controla a inteligência artificial e como são distribuídos os seus benefícios e os seus riscos? Não é uma pergunta técnica, embora quase todas as suas ramificações exijam resposta técnica. É uma pergunta sobre propriedade, sobre direito e sobre a repartição do produto do trabalho. Colocou-se perante o tear mecânico, perante o motor eléctrico e perante o computador de secretária, e de cada vez recebeu resposta diferente, conforme a força relativa de quem a fez. A interrogação não me chegou por via da leitura.

— Humanos e Humanoides — Volume 1

Original text in Portuguese.

Editorial note

Source: publisher’s description of the Portuguese edition (Amazon).

About the book

Description from the original edition, in Portuguese. The text continues from the excerpt.

Chegou pela observação de uma coisa simples e desconcertante: em pouco mais de uma vida, vi o trabalho ser redefinido três vezes no mesmo território, e da terceira vez percebi que já não sabia dizer o que restaria por fazer. Esse desconforto — não o entusiasmo, não o alarme ,é a origem destas páginas. Escrevo de um lugar concreto, e isso condiciona tudo o que se segue. Cresci num país onde o futuro era, sobretudo, aquilo que acontecia noutro sítio. A ditadura fez da escassez uma pedagogia e da ignorância uma política: limitava-se o acesso ao ensino, controlava-se a informação, e a emigração funcionava como válvula de escape de uma economia que não tinha para onde crescer. Retive dessa altura uma lição que atravessa o livro inteiro: decidir quem pode saber é já decidir quem pode mandar. A distribuição do conhecimento nunca foi neutra, e não passou a sê-lo por ter mudado de suporte. Depois veio a industrialização tardia. Nas décadas que se seguiram a 1974, e sobretudo após a adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986, o Minho encheu-se de unidades têxteis, de confecção e de calçado. Vi máquinas chegarem em segunda mão, vi pavilhões erguidos em terrenos que tinham sido milho, vi salários baixos serem apresentados como vantagem competitiva e vi essa vantagem desfazer-se mal apareceu quem produzisse mais barato. Foi ali que aprendi a distinguir dois usos possíveis de uma tecnologia: adoptá-la como substituto de salário, sem alterar a organização do trabalho, ou adoptá-la como complemento de qualificação, mudando aquilo que as pessoas fazem. A primeira via dá resultados imediatos e esgota-se; a segunda é lenta, cara e cumulativa. Portugal escolheu maioritariamente a primeira, e a factura chegou com atraso. A informatização foi o terceiro tempo. Os terminais entraram nos escritórios, a folha de cálculo substituiu livros de registo inteiros, funções administrativas que ocupavam pessoas a tempo inteiro reduziram-se a um procedimento. Prometia-se tempo libertado. O tempo foi efectivamente libertado, mas quase nunca para quem o perdera: os ganhos de produtividade existiram e a sua distribuição não foi automática. Guardei disso a desconfiança perante qualquer promessa técnica formulada sem sujeito — quem ganha, quem paga, em que prazo, sob que regra.

O que agora se passa tem uma diferença de natureza, não apenas de grau. As vagas anteriores substituíram força e repetição; esta incide sobre operações que sempre classificámos como intelectuais: redigir, classificar, resumir, traduzir, propor. O Fundo Monetário Internacional estimou, em Janeiro de 2024, que cerca de 40% do emprego mundial está exposto à inteligência artificial, proporção que sobe para perto de 60% nas economias avançadas, precisamente por serem as que concentram ocupações de tarefa cognitiva. A exposição não é destruição — parte dela é complementaridade, e essa distinção ocupa boa parte deste livro, mas obriga a olhar para o país onde escrevo. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2025 utilizavam inteligência artificial 11,5% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço; e, de acordo com dados do Eurostat, a produtividade por hora trabalhada em Portugal situava-se nesse ano em 66,9% da média da União Europeia a vinte e sete. Uma economia de empresas pequenas, com défice de qualificação e forte dependência de custos baixos, não enfrenta esta transição em condições de igualdade.

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Book details

Genre
Essay
Axis of the work
Artificial Intelligence
First published
Pages
608 (Portuguese edition)
Formats
Kindle e-book · Paperback
Languages
1 — Portuguese
ISBN
979-8171163273

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