
Os Evangelhos Silenciados à luz dum leigo no Século XXI · Volume 2
2026 · 602 pages


e ninguém está verdadeiramente só
And no one is truly alone
Disponible en 2 langues
« O corpo fica. E o que parte descobre, atónito, que continua a ser, mesmo sem ele. »
«O desígnio maior de todo o homem ao nascer é o de procurar a felicidade, mas nenhum de nós pode ser verdadeiramente feliz enquanto houver, no nosso semelhante, dor que pudéssemos consolar.»
Chega-se ao fim deste livro como se chega ao alto de uma serra: ofegante, e contudo certo de que o cansaço valeu o que se viu. Quem leu até aqui terá reparado que estes cinquenta poemas não falam, afinal, de cinquenta coisas diferentes. Falam de uma só. Falam do homem — não do homem em abstrato, dissolvido em ideias, mas do homem concreto, feito de carne e de gesto, com as suas duas mãos, os seus dois braços, os seus dois olhos, os seus dois pés que aprendem a caminhar.
— No éter, seis segundos contêm uma eternidade
Texte original en portugais.
Source : présentation de l’éditeur de l’édition en portugais (Amazon).
Présentation de l’édition originale, en portugais. Le texte reprend là où s’arrête l’extrait.
É essa a geografia secreta que percorremos: o mapa de um corpo que é, ao mesmo tempo, o mapa de uma alma.
Porque o corpo, neste livro, nunca foi apenas corpo. Foi sempre cifra de outra coisa. As mãos que se abrem ou se fecham são as escolhas que tomamos diante do próximo; os braços que erguem ou que ferem são a força que damos ao mundo e a direção que lhe imprimimos; os olhos que leem o bom ou o veneno são o discernimento que nos salva ou nos perde; o caminhar vigilante é a forma como atravessamos a existência, atentos ou distraídos, amparando ou tropeçando. O homem é a sua própria parábola. Cada membro que possui é uma pergunta moral que a vida lhe faz, e a que ele responde não com palavras, mas com atos.
Foi por isso que o livro começou na felicidade e terminou no céu. Não por acaso, e não por capricho de composição. Começou na verdade mais simples e mais difícil de todas: a de que nenhum de nós pode ser inteiramente feliz no meio de infelizes. Esta frase, que abre o caminho, é a semente de tudo o que se seguiu. Dela nasceu a meditação sobre a partilha, sobre a soleira que separa a casa quente da rua fria, sobre a vergonha limpa de quem se contenta enquanto o vizinho padece. E dela nasceu também, por necessidade interior, a longa subida que conduz ao fim — porque se a felicidade não pode ser só nossa, então o céu, que é a felicidade levada à sua forma mais alta, também não pode ser habitado em solidão nem com desdém.
Entre um extremo e outro estende-se aquilo a que poderíamos chamar uma ética do gesto. Não uma moral de mandamentos gravados em pedra, mas uma sabedoria que se aprende com o próprio corpo, observando o que ele pede e o que ele recusa. O recipiente que transborda ensina-nos a temperança melhor do que qualquer tratado. A gaiola que mata o pássaro que queria guardar ensina-nos sobre o amor mais do que mil declarações. A mão que basta estar aberta para o mal para contaminar a que se abria para o bem ensina-nos que a integridade não admite metades, que não há virtude parcial, que o homem é uma unidade indivisível e que aquilo que faz com uma parte de si afeta inevitavelmente o todo.
Há, nesta coleção, uma convicção que atravessa cada página como uma água subterrânea: a de que a grandeza não está no tamanho, mas na direção. Pode um pequeno ser imenso, se a sua alma for digna; pode um poderoso ser ínfimo, se a sua força servir o dano. O que mede o homem não é a altura a que chegou, mas o modo como subiu e o que fez quando chegou. Por isso o livro insiste, vez após vez, na memória da origem, no barro dos primeiros passos, na raiz que não se deve cortar. Quem esquece de onde veio perde o chão sob os pés precisamente no momento em que mais alto se julga. E quem se lembra — quem sobe sem renegar a pequenez de que partiu — esse leva consigo, até ao cume, a única coisa que torna o cume habitável: a humildade...
Édition en portugais:
No éter, seis segundos contêm uma eternidade
98 pagesKindle et broché
Édition en anglais:
In the Ether, Six Seconds Contain an Eternity
98 pagesKindle et broché
Texte original en portugais.
Reunião de seis colecções de poesia em prosa — cento e quarenta e um poemas, com posfácio ensaístico para cada colecção —, este volume é a summa do poema em prosa na obra de Cerqueira. As seis partes têm registos deliberadamente distintos: O Caminho do Céu (cinquenta poemas, uma «ética do gesto» sobre a felicidade partilhada), A Criança que Habita (a infância como «subsolo de luz»), O Direito de Pensar (vinte poemas de combate pela liberdade da mente), Alguém que Fica (o abandono infantil e a cura pela presença), O Que Nunca Existiu (uma poética da criação) e Seis Segundos, a colecção-título: vinte poemas em três movimentos — a Travessia, o Espelho, a Presença — sobre uma experiência de quase-morte, «um coração que pára durante seis segundos e, nesse intervalo ínfimo, abre um abismo onde cabe uma vida inteira».
É nesta última colecção que o livro atinge a sua maior tensão metafísica. O primeiro movimento é quase clínico: o corpo que jaz «como uma roupa pousada na cadeira», a língua dos vivos que se torna ruído — «O corpo fica. E o que parte descobre, atónito, que continua a ser, mesmo sem ele.» O segundo movimento tira as consequências filosóficas com imagens de rara precisão: «O tempo não é o rio. O tempo é a estreiteza dos nossos olhos diante do mar»; no «espelho absoluto» do limiar não há juiz, «há apenas o reflexo, e o reflexo basta». O terceiro abre-se, assumidamente, ao sobrenatural — uma presença «vasta e silenciosa, anterior a toda a linguagem» —, mas o posfácio guarda uma honestidade exemplar: não competia ao poeta decidir «se o que os poemas descrevem é revelação ou neuroquímica»; competia-lhe dar-lhe forma.
As restantes colecções gravitam em torno do subtítulo — «ninguém está verdadeiramente só». O Caminho do Céu parte do mote de que nenhum de nós pode ser feliz no meio de infelizes e culmina na imagem mais generosa do livro: «O céu, se existe, é uma varanda» — de onde se acena a quem ainda sobe no escuro. Alguém que Fica condensa a sua tese numa frase que vale um tratado de pedagogia: o que salva uma criança «não é o mundo inteiro a mudar — é uma só pessoa que não vai embora». E O Direito de Pensar liga este eixo ao eixo cívico da obra: a censura como mutilação, a autocensura como censor que «migra de fora para dentro da cabeça», o pedido final «pensa por ti, e escreve». No plano do conjunto, este é o livro em que a meditação sobre a morte, a infância e a criação desagua numa única convicção — a comunhão — que é a face espiritual da tese XVIII: quem viu que ninguém está só não pode reduzir os outros a variáveis de cálculo.
« um coração que pára durante seis segundos e, nesse intervalo ínfimo, abre um abismo onde cabe uma vida inteira »
« como uma roupa pousada na cadeira »
« O tempo não é o rio. O tempo é a estreiteza dos nossos olhos diante do mar »
« há apenas o reflexo, e o reflexo basta »
« vasta e silenciosa, anterior a toda a linguagem »
« se o que os poemas descrevem é revelação ou neuroquímica »
« O céu, se existe, é uma varanda »
« não é o mundo inteiro a mudar — é uma só pessoa que não vai embora »
« migra de fora para dentro da cabeça »
« ética do gesto »« subsolo de luz »« espelho absoluto »« ninguém está verdadeiramente só »« pensa por ti, e escreve »
Source : «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

2026 · 602 pages


2026 · 710 pages
