
Os Evangelhos Silenciados à luz dum leigo no Século XXI · Deel 1
2026 · 710 pagina’s


In the Light of a Layman in the 21st Century
Verkrijgbaar in 2 talen
“foi acumulando perguntas durante anos, sem encontrar livro que as recolhesse com a serenidade necessária”
Entre os textos que a biblioteca de Nag Hammadi devolveu à luz em 1945, nenhum tem provocado tanta investigação, tanta admiração e tanta inquietação como o Evangelho segundo Tomé. Não é evangelho narrativo: não conta a infância de Jesus, nem os seus milagres, nem a paixão, nem a ressurreição. É uma colectânea — pura e seca — de cento e catorze ditos atribuídos ao Senhor, cada um introduzido por uma fórmula simples ("Disse Jesus...") e separado dos outros por uma linha em branco do escriba copta. Não há ordem narrativa. Não há contexto. Não há explicação. Há apenas a voz — a voz que se diz de Jesus —, ressoando em forma de aforismo, de parábola breve, de paradoxo, de imperativo gnómico.
— Os Evangelhos Silenciados à luz dum leigo no Século XXI — Deel 2
Oorspronkelijke tekst in het Portugees.
Bron: uitgeversbeschrijving van de editie in het Portugees (Amazon).
Beschrijving uit de oorspronkelijke editie, in het Portugees. De tekst gaat na dit fragment verder.
O texto abre com uma fórmula extraordinária: "Estes são os ditos secretos que o Jesus vivente disse e que escreveu Dídimo Judas Tomé. E disse: Quem encontrar a interpretação destas palavras não saboreará a morte" (logion 1). E fecha, cento e catorze logia depois, com um diálogo polémico entre Pedro, que pede que Maria seja afastada "porque as mulheres não são dignas da vida", e Jesus, que recusa, prometendo "levá-la a si mesma" (logion 114). Entre o início e o fim, abre-se um universo verbal único na literatura cristã antiga.
O Evangelho de Tomé é, possivelmente, o mais importante dos textos descobertos em Nag Hammadi do ponto de vista historiográfico. Várias razões. Primeiro: porque a sua datação é antiga. Apesar das discussões — alguns investigadores datam-no nos anos 50-60 da nossa era (paralelo ou anterior aos sinópticos), outros nos anos 100-140 (posterior mas ainda muito próximo das origens) —, há consenso largo de que o núcleo do texto remonta às primeiras décadas do cristianismo, possivelmente conservando ditos de Jesus em formas anteriores às registadas em Mateus, Marcos e Lucas. Segundo: porque os fragmentos gregos de Oxirinco (Pap. Oxy. 1, 654, 655), descobertos em 1897 e 1903-1904, mostram que o texto circulava em grego no início do século III, com uma versão muito próxima da copta. Terceiro: porque a sua estrutura — colectânea de logia, sem narrativa — coincide notavelmente com o que a hipótese exegética moderna postula para a fonte Q (a colectânea de ditos hipotética, comum a Mateus e Lucas, postulada para explicar o problema sinóptico). O Evangelho de Tomé poderia ser, na sua arquitectura formal, o testemunho material de um género literário cristão primitivo de que Q seria outro exemplar.
Para a teologia, o Evangelho de Tomé é também extraordinário, embora por razões diferentes. Não tem cosmologia gnóstica elaborada (não menciona Yaldabaoth, nem os Eóns, nem a queda da Sophia). Não tem cristologia docética manifesta (Jesus aparece como mestre de sabedoria, não como espírito que aparenta corpo). Não tem soteriologia de redenção exterior (a salvação é oferecida não por sacrifício de Cristo, mas por conhecimento — gnose — de si mesmo). É, em última análise, um texto sapiencial: a sua matriz é a literatura sapiencial judaica (Provérbios, Eclesiástico, Sabedoria), com inflexão cristã e provavelmente sob influência hermético-helenística..
Editie in het Portugees:
Os Evangelhos Silenciados à luz dum leigo no Século XXI
602 pagina’sKindle en paperback
Editie in het Engels:
The Silenced Gospels
733 pagina’sKindle en paperback
Oorspronkelijke tekst in het Portugees.
Obra monumental em dois volumes — mais de mil e seiscentas páginas no formato editorial —, Os Evangelhos Silenciados é o centro de gravidade espiritual de toda a produção de Hermínio Cerqueira e a matriz de que derivam vários livros deste eixo. O ponto de partida é histórico e quase romanesco: Dezembro de 1945, Alto Egipto, a enxada de Muhammad Ali al-Samman a bater numa jarra de barro com treze códices coptas — o Evangelho de Tomé, o de Maria, o de Filipe, o Apócrifo de João, vozes que a Carta Festal de Atanásio silenciara em 367 e que voltavam, intactas, «à conversação humana». O Volume I narra a travessia: a pluralidade do cristianismo primitivo, a construção do cânon de Ireneu a Constantino, a longa noite medieval e moderna, Tischendorf no Sinai, a viragem de Nag Hammadi. O Volume II entra no coração teológico: leitura demorada dos cinco apócrifos centrais, a reabilitação de Maria Madalena como «apóstola das apóstolas», a teologia do feminino divino, e o exercício mais ousado do conjunto — três cenários contrafactuais sobre o que teria sido a Igreja se estes evangelhos tivessem entrado no cânon.
Mas o que dá ao livro a sua fisionomia própria não é a erudição — que existe, em diálogo declarado com Pagels, Ehrman, King, Robinson — e sim o lugar de enunciação. O autor escreve, di-lo com honestidade desarmante, como leigo: «não por um clérigo, não por um académico», mas por alguém que «foi acumulando perguntas durante anos, sem encontrar livro que as recolhesse com a serenidade necessária». Daqui nasce a tese que estrutura os dois volumes e que é, no fundo, a tese espiritual de toda a obra: a pergunta não é o contrário da fé, é a sua forma respiratória. «A pergunta é o oxigénio da fé adulta. Sem ela, a fé sufoca; com ela, respira», escreve no primeiro capítulo, cujo título — «Não somos livres de perguntar?» — funciona como pórtico de tudo. O argumento é conduzido com um método que o próprio livro teoriza: a quaestio tomista, a fé que dá voz à objecção antes de responder. Desfilam Justino, Orígenes, Agostinho («crede ut intelligas»), Anselmo, Pascal; e desfila também a contra-história dos silenciados modernos — Teilhard, Congar, de Lubac, Küng —, lida com uma serenidade que recusa tanto o ressentimento como a apologética: «a reabilitação tarda, mas chega».
As imagens dominantes são domésticas e humildes — a mesa de cozinha onde alguém abre a Bíblia da avó, a igreja vazia a meio da semana, o quarto de hospital — porque é «destes lugares, e não de outros», que a obra parte. A prosa tem pórticos e codas meditativas em cada capítulo, e frases que condensam a moral do conjunto com nitidez aforística: «Calar por medo é entregar a casa ao vento»; «vale mais um Job a interrogar do que um Elifaz a explicar». No plano da obra completa, este díptico é decisivo por duas razões. Primeiro, porque fornece o repertório simbólico dos livros de poemas em prosa que se lhe seguem — O Reino Está Dentro e Fora é explicitamente a sua transposição lírica. Segundo, porque ilumina a tese XVIII do Manifesto pelo lado menos esperado: o estratega que analisa o poder eclesiástico do século IV com o mesmo rigor com que analisaria uma aliança contemporânea é também o crente que se recusa a separar rigor e ternura. A investigação sobre quem decidiu o cânon, «com que ganhos e com que perdas», é trabalho de análise estratégica aplicado à história da fé — mas conduzido por quem sente o que está em jogo em cada silenciamento. Fé adulta, aqui, é exactamente isso: inteligência que não deixou de amar aquilo que interroga.
“não por um clérigo, não por um académico”
“A pergunta é o oxigénio da fé adulta. Sem ela, a fé sufoca; com ela, respira”
“destes lugares, e não de outros”
“Calar por medo é entregar a casa ao vento”
“vale mais um Job a interrogar do que um Elifaz a explicar”
“com que ganhos e com que perdas”
“à conversação humana”“apóstola das apóstolas”“Não somos livres de perguntar?”“crede ut intelligas”“a reabilitação tarda, mas chega”
Bron: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

2026 · 710 pagina’s


