Skip to content
Cover of the book “Atrás do Algodão Branco”

Atrás do Algodão Branco

“Nenhum destes poemas está acabado. Estão todos a meio, propositadamente, como uma ponte que avança até ao centro do rio e ali pára, à tua espera.”

From the book — quotation selected in “A Obra Comentada”
Pages
88 pages
First published
Formats
Kindle and paperback
Read an excerpt

Excerpt

«A verdade não está no facto, mas no que o facto acende em nós.»

Há uma cortina diante de ti. Não a vês porque é da cor exacta do que esconde, porque tem a textura macia daquilo a que já te habituaste, porque foi tecida tão devagar, fio a fio, dia após dia, que nunca houve um momento em que pudesses dizer: agora puseram-na ali. Chamo-lhe a cortina de algodão branco. É feita do hábito e da linguagem, das palavras que aprendeste para nomear as coisas antes de as teres olhado realmente, dos gestos que repetes sem saber porquê, do modo como o teu olho já decidiu o que vai ver antes de ver. É branca porque parece inocente. É de algodão porque é doce ao toque, e porque te protege.

— Atrás do Algodão Branco

Original text in Portuguese.

Editorial note

Source: publisher’s description of the Portuguese edition (Amazon).

About the book

Description from the original edition, in Portuguese. The text continues from the excerpt.

Sem ela, o mundo entraria por ti como entra a luz por uma janela sem vidro: demasiado, demasiado depressa, demasiado verdadeiro. A cortina é piedade. Mas é também esquecimento.

Por detrás dela há um padrão. Não um caos, repara bem: um padrão. Há uma figura que liga a folha que cai ao sangue que te corre nas veias, o arco da onda ao arco da tua sobrancelha quando te surpreendes, a forma como uma cidade se organiza à forma como se organiza uma colmeia ou uma galáxia. Tudo o que existe parece estar a desenhar a mesma coisa em escalas diferentes, e esse desenho continua dentro de ti, e tu fazes parte do traço. Não há separação real entre o que olhas e o olho que olha. Mas a cortina divide. A cortina diz: aqui acabas tu, ali começa o resto. E vives essa mentira útil porque sem ela seria impossível levantares-te de manhã e seres uma pessoa só, com um nome só, num dia só.

A poesia é o gesto de afastar a cortina um instante. Não de a rasgar — quem a rasga endoidece, ou cega de tanta luz. Apenas de a afastar com dois dedos, devagar, o tempo de um verso, o tempo de uma respiração retida. E nesse instante vês o padrão. Vês que a coisa que tinhas por banal estava cheia até transbordar. Vês que a chávena sobre a mesa, a mão da tua mãe, a chuva contra o vidro, não eram cenário: eram texto. Estavam a dizer-te algo desde sempre, e tu passavas. O poema é esse afastar. Depois a cortina volta a cair, porque tem de cair, porque não se pode viver sempre do outro lado. Mas já não és o mesmo. Ficou em ti a marca do que viste, como fica na retina a forma do sol depois de o fitares.

Quero que entremos juntos numa distinção que atravessa este livro inteiro, do princípio ao fim, como uma espinha. É a distinção entre o facto e a verdade.

O facto é seco. O facto é exacto, exterior, mensurável. Diz: choveu quarenta milímetros, ele morreu às três da tarde, a casa tinha quatro paredes e um tecto. O facto é verdadeiro e é mudo. Não te toca, não te aquece, não sabe o teu nome. Podes empilhar factos a vida toda e morrer sem teres compreendido uma única coisa, como quem decora o dicionário de uma língua que nunca falará com ninguém. O facto é honesto e é cego. Precisamos dele, é o esqueleto do mundo, mas um esqueleto não anda sozinho.

A verdade humana é outra coisa. É quente. É vivida. Não está na medida da chuva mas no modo como a chuva, naquela tarde, contra aquele vidro, te disse que estavas só. Não está na hora da morte mas no silêncio que ficou na cozinha quando o relógio continuou a andar e ninguém teve coragem de o parar. A verdade pulsa no corpo. Tem temperatura, tem peso, tem um som. O facto sabe-se; a verdade reconhece-se — e reconhece-se sempre tarde, sempre quando já dói, sempre quando já não há como devolvê-la ao sítio de onde veio. Este livro é uma longa tentativa de passar do facto à verdade. De pegar nas coisas secas e devolver-lhes o calor que tinham antes de a linguagem as ter arrumado em prateleiras.

E é aqui que te peço uma coisa difícil: que confies no teu corpo mais do que na tua cabeça...

Index of editions

One line per edition, in the language in which it was published. Choose your Amazon store once; it applies to every edition.
  • In the Amazon stores, each link uses the edition’s own code (ASIN); availability in each country is managed by Amazon.
  • In Portugal, buy from Amazon Spain: there is no Portuguese Amazon store.
See all editions and stores

Critical reading — “A Obra Comentada” (2026)

A third-person critical reading, reproduced from “A Obra Comentada,” the annotated catalog of the work published by the author himself. It is not a press review.

Original text in Portuguese.

Publicado em edição de oitenta poemas e em edição e-book que se apresenta como «uma jornada em prosa poética pela percepção, pelo corpo e pelo padrão que se esconde na realidade», Atrás do Algodão Branco é o livro mais declaradamente epistemológico do eixo — uma poética do conhecimento sensível, organizada em oito partes que o autor pede que se leiam «como oito movimentos de uma só respiração»: o que é visto, o que sente, o que lembra, o que se parte, o que resiste, o que revela, o que se transforma, o que permanece. A imagem-título é uma das grandes invenções do autor: a «cortina de algodão branco», tecida de hábito e linguagem, «da cor exacta do que esconde», que nos protege do real e simultaneamente no-lo rouba. «A poesia é o gesto de afastar a cortina um instante. Não de a rasgar — quem a rasga endoidece, ou cega de tanta luz.»

A espinha conceptual do livro é a distinção entre facto e verdade, enunciada na epígrafe — «A verdade não está no facto, mas no que o facto acende em nós» — e trabalhada poema a poema com uma teimosia luminosa: «Os factos não sabem respirar. Nós, sim.» O facto é «o esqueleto do mundo, mas um esqueleto não anda sozinho»; a verdade «não se sabe, reconhece-se — e reconhece-se sempre tarde, sempre quando já dói». Daqui decorre a segunda tese, mais arriscada: a primazia do corpo como instrumento de conhecimento — «a verdade, quando chega, não chega primeiro à mente. Chega ao pulso». E a terceira, que aproxima o livro da física e da mística ao mesmo tempo: por detrás da cortina há um padrão, um desenho único que liga «a folha que cai ao sangue que te corre nas veias», e o leitor «faz parte do traço». A introdução culmina numa antropologia tripartida de grande beleza — somos palavra, música e coisa — e num pacto de leitura pouco comum: «Nenhum destes poemas está acabado. Estão todos a meio, propositadamente, como uma ponte que avança até ao centro do rio e ali pára, à tua espera.»

Os poemas, em prosa poética de andamento contemplativo, começam na superfície doméstica (a sala, a mesa, o vidro «entre o olho e a manhã») e vão descendo até à fractura e à revelação. Reconhecem-se ecos de Rilke na pedagogia do olhar e da tradição zen na desconfiança do nome — «o nome é apenas a primeira aproximação do mistério» —, mas o timbre é próprio: uma didáctica da atenção sem mestre, em segunda pessoa, fraterna. No conjunto da obra, este livro é o elo entre a poesia meditativa e o ensaísmo de análise: a crítica do «facto seco» que não toca ninguém é exactamente a crítica que o Manifesto faz ao cálculo sem sentimento. «Afasta a cortina. Devagar. Com dois dedos» — é, no fundo, o método de toda a obra de Cerqueira, da teologia à geopolítica.

Quotations from the book

  • “uma jornada em prosa poética pela percepção, pelo corpo e pelo padrão que se esconde na realidade”

  • “como oito movimentos de uma só respiração”

  • “da cor exacta do que esconde”

  • “A poesia é o gesto de afastar a cortina um instante. Não de a rasgar — quem a rasga endoidece, ou cega de tanta luz.”

  • “A verdade não está no facto, mas no que o facto acende em nós”

  • “Os factos não sabem respirar. Nós, sim.”

  • “o esqueleto do mundo, mas um esqueleto não anda sozinho”

  • “não se sabe, reconhece-se — e reconhece-se sempre tarde, sempre quando já dói”

  • “a verdade, quando chega, não chega primeiro à mente. Chega ao pulso”

  • “a folha que cai ao sangue que te corre nas veias”

  • “entre o olho e a manhã”

  • “o nome é apenas a primeira aproximação do mistério”

  • “Afasta a cortina. Devagar. Com dois dedos”

Other expressions quoted from the book

“cortina de algodão branco”“faz parte do traço”“facto seco”

Source: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

Book details

Genre
Poetry
First published
Pages
88 (Portuguese edition)
Formats
Kindle e-book · Paperback
Languages
1 — Portuguese

You may also like

See all books