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Excerpt

A Luta Contra o Tempo
Onde o Árido Floresce
O Mesmo Indizível
Condenados à Liberdade
A Poesia da Democracia e da Liberdade do Espírito
Portugal Democrático
A Luta Contra o Tempo
Onde o Árido Floresce
O Mesmo Indizível
Condenados à Liberdade
A Poesia da Democracia e da Liberdade do Espírito
Portugal Democrático

Encontrei um grão de areia no bolso do casaco e soube, antes de o olhar, que ele continha um deserto inteiro. Não por metáfora — por necessidade. Do mesmo modo que uma gota de sangue transporta o mapa genético de um corpo, aquele grão transportava a memória de todas as dunas que alguma vez o vento empilhou e desfez.

— Poemas Seleccionados

Original text in Portuguese.

Editorial note

Source: publisher’s description of the Portuguese edition (Amazon).

About the book

Description from the original edition, in Portuguese. The text continues from the excerpt.

Peguei-o entre o polegar e o indicador e senti-o pulsar, tímido, como coração de pardal.

Há coisas que só se compreendem quando se seguram entre dois dedos. A imensidão, por exemplo. Ninguém a compreende olhando-a de frente — é grande demais para caber nos olhos. Mas quando se reduz a um grão, quando toda a areia do Saara cabe na unha do mindinho, então a imensidão torna-se íntima, quase doméstica, como um gato que se enrosca no colo e ronrona o infinito.

Há lugares que nos enganam pela superfície. Chamamos-lhes vazios, estéreis, mortos — porque não sabemos ver o tempo que neles respira. Mas o deserto não é ausência: é contenção. Não é silêncio: é espera.

1
O Tempo que Desgasta

No meio da noite — ou talvez já no limiar de um dia indistinto — tudo era repetição. O sol, horas antes, queimara sem piedade um horizonte vazio, onde nada se distinguia senão a ondulação lenta e hipnótica de um solo sem fim. Um território sem memória visível, sem cor, sem promessa. Ali, o tempo não passava — desgastava. Uma hora inteira podia caber dentro de si própria, sem deixar marca. E quem atravessa esses lugares aprende que há um modo do tempo que não constrói nem destrói: apenas lima, devagar, a pretensão de que estamos no centro de alguma coisa. O deserto não nos castiga. Apenas nos devolve à nossa verdadeira medida.

Talvez a diferença entre o científico e o sagrado seja apenas a linguagem que usamos para tocar o mesmo indizível.

«L’homme est condamné à être libre.»
— Jean-Paul Sartre, L’Être et le Néant
Gott ist tot.
— Friedrich Nietzsche, Die fröhliche Wissenschaft
Lançados ao Vento do Ser

Ninguém nos pediu licença. Não houve contrato, nem aviso prévio, nem sequer um sussurro antes do primeiro grito. Fomos lançados — como pedras atiradas a um lago sem fundo, sem saber se havia água ou abismo. E no entanto, aqui estamos: de pé sobre a crosta frágil de um planeta que gira em torno de uma estrela vulgar, num braço menor de uma galáxia que nem sequer sabe o nosso nome.

Sartre chamou-lhe «facticidade» — esse peso bruto de existir sem razão. Mas a palavra, por mais precisa que seja, não captura o espanto de abrir os olhos pela primeira vez num quarto de hospital, sob luzes fluorescentes, rodeado de estranhos que nos dizem «bem-vindo» como se soubessem o que isso significa. Ninguém sabe. Estamos todos a improvisar.

O Peso de Ser Quem Decide

A angústia não é medo. O medo tem objecto — o cão que ladra, a doença que avança, o emprego que vacila. A angústia é outra coisa: é o tremor que sentimos diante de nós próprios, diante da vastidão do que podemos ser e da ausência total de guia.

Sartre descreveu a angústia como a tonalidade afectiva da liberdade. Não é um defeito nem uma doença — é o preço de saber que cada instante é uma encruzilhada sem sinalização. É o vertigem de quem caminha à beira do precipício e descobre que o perigo não vem de fora, mas de dentro: da possibilidade sempre aberta de saltar.

O País Que Se Inventa a Cada Manhã

Há um país que não cabe nos mapas, porque se refaz a cada amanhecer com as mãos de quem decide não se calar.

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Critical reading — “A Obra Comentada” (2026)

A third-person critical reading, reproduced from “A Obra Comentada,” the annotated catalog of the work published by the author himself. It is not a press review.

Original text in Portuguese.

Antologia de autor em seis andamentos — A Luta Contra o Tempo, Onde o Árido Floresce, O Mesmo Indizível, Condenados à Liberdade, A Poesia da Democracia e da Liberdade do Espírito e Portugal Democrático —, este volume funciona como corte transversal da lírica de Cerqueira: num só livro, o leitor encontra a meditação metafísica, a poesia amorosa do indizível, o existencialismo de matriz sartriana («condenados à liberdade») e a poesia cívica da democracia. A colecção de abertura, que dá subtítulo ao conjunto, é a mais elaborada: dez poemas em prosa e cinquenta sonetos, organizados em ciclos onde cada prosa gera os seus sonetos-glosa — o método de Poesia Zen e de Perdoar aplicado agora ao tempo, à memória e à finitude.

O primeiro ciclo, «O Grão que Sonha o Deserto», mostra o poeta no seu registo mais próprio: a metafísica do ínfimo. Um grão de areia achado no bolso do casaco contém «um deserto inteiro. Não por metáfora — por necessidade», e a imensidão, reduzida ao grão, «torna-se íntima, quase doméstica». A memória familiar entra sem aviso na especulação: o avô «que nunca saiu de Ponte São Vicente» dizia que cada pessoa tem uma duna por dentro — e o soneto que o evoca fecha com um dístico de antologia: «A duna ficou nele. Ele, em nenhuma.» O vento surge como narrador do mundo — «O vento do deserto não sopra — narra» — e o pensamento como vento que passa pelo sujeito-duna: figura zen da impersonalidade, agora em paisagem alentejana e minhota. O soneto inicial condensa a tese do ciclo num verso: «e o grão é o deserto em cada rota».

As colecções cívicas da segunda metade — Condenados à Liberdade, A Poesia da Democracia, Portugal Democrático — fazem deste o livro em que os dois hemisférios da obra (o contemplativo e o político) coabitam com mais evidência. A liberdade é cantada primeiro como vertigem existencial e depois como conquista histórica concreta, na linha do canto de Abril das Caravelas; a democracia aparece não como arranjo institucional, mas como «liberdade do espírito» — eco directo de O Direito de Pensar. Enquanto antologia, o volume tem ainda um valor documental: mostra que a «luta contra o tempo» do título se trava em duas frentes, a da finitude pessoal (o grão, a duna, o avô) e a da memória colectiva (Portugal democrático contra o esquecimento). No plano da obra completa, é o livro-porta de entrada — quem quiser conhecer o poeta Cerqueira num só volume deve começar aqui —, e a demonstração portátil da tese XVIII: o mesmo homem que mede o mundo pensa-o com o coração no grão de areia.

Quotations from the book

  • “um deserto inteiro. Não por metáfora — por necessidade”

  • “O Grão que Sonha o Deserto”

  • “que nunca saiu de Ponte São Vicente”

  • “O vento do deserto não sopra — narra”

  • “e o grão é o deserto em cada rota”

Other expressions quoted from the book

“condenados à liberdade”“torna-se íntima, quase doméstica”“liberdade do espírito”“luta contra o tempo”

Source: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

Book details

Genre
Poetry
First published
Pages
345 (Portuguese edition)
Formats
Kindle e-book · Paperback
Languages
1 — Portuguese
ISBN
979-8180574916

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