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Copertina del libro «Poemas Seleccionados»

Poemas Seleccionados

«A duna ficou nele. Ele, em nenhuma.»

Dal libro — citazione scelta in «A Obra Comentada»
Pagine
345 pagine
ISBN
ISBN 979-8180574916
Prima pubblicazione
Formati
Kindle e copertina flessibile
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Estratto

A Luta Contra o Tempo
Onde o Árido Floresce
O Mesmo Indizível
Condenados à Liberdade
A Poesia da Democracia e da Liberdade do Espírito
Portugal Democrático
A Luta Contra o Tempo
Onde o Árido Floresce
O Mesmo Indizível
Condenados à Liberdade
A Poesia da Democracia e da Liberdade do Espírito
Portugal Democrático

Encontrei um grão de areia no bolso do casaco e soube, antes de o olhar, que ele continha um deserto inteiro. Não por metáfora — por necessidade. Do mesmo modo que uma gota de sangue transporta o mapa genético de um corpo, aquele grão transportava a memória de todas as dunas que alguma vez o vento empilhou e desfez.

— Poemas Seleccionados

Testo originale in portoghese.

Nota editoriale

Fonte: descrizione editoriale dell’edizione in portoghese (Amazon).

Il libro

Descrizione dell’edizione originale, in portoghese. Il testo prosegue dall’estratto.

Peguei-o entre o polegar e o indicador e senti-o pulsar, tímido, como coração de pardal.

Há coisas que só se compreendem quando se seguram entre dois dedos. A imensidão, por exemplo. Ninguém a compreende olhando-a de frente — é grande demais para caber nos olhos. Mas quando se reduz a um grão, quando toda a areia do Saara cabe na unha do mindinho, então a imensidão torna-se íntima, quase doméstica, como um gato que se enrosca no colo e ronrona o infinito.

Há lugares que nos enganam pela superfície. Chamamos-lhes vazios, estéreis, mortos — porque não sabemos ver o tempo que neles respira. Mas o deserto não é ausência: é contenção. Não é silêncio: é espera.

1
O Tempo que Desgasta

No meio da noite — ou talvez já no limiar de um dia indistinto — tudo era repetição. O sol, horas antes, queimara sem piedade um horizonte vazio, onde nada se distinguia senão a ondulação lenta e hipnótica de um solo sem fim. Um território sem memória visível, sem cor, sem promessa. Ali, o tempo não passava — desgastava. Uma hora inteira podia caber dentro de si própria, sem deixar marca. E quem atravessa esses lugares aprende que há um modo do tempo que não constrói nem destrói: apenas lima, devagar, a pretensão de que estamos no centro de alguma coisa. O deserto não nos castiga. Apenas nos devolve à nossa verdadeira medida.

Talvez a diferença entre o científico e o sagrado seja apenas a linguagem que usamos para tocar o mesmo indizível.

«L’homme est condamné à être libre.»
— Jean-Paul Sartre, L’Être et le Néant
Gott ist tot.
— Friedrich Nietzsche, Die fröhliche Wissenschaft
Lançados ao Vento do Ser

Ninguém nos pediu licença. Não houve contrato, nem aviso prévio, nem sequer um sussurro antes do primeiro grito. Fomos lançados — como pedras atiradas a um lago sem fundo, sem saber se havia água ou abismo. E no entanto, aqui estamos: de pé sobre a crosta frágil de um planeta que gira em torno de uma estrela vulgar, num braço menor de uma galáxia que nem sequer sabe o nosso nome.

Sartre chamou-lhe «facticidade» — esse peso bruto de existir sem razão. Mas a palavra, por mais precisa que seja, não captura o espanto de abrir os olhos pela primeira vez num quarto de hospital, sob luzes fluorescentes, rodeado de estranhos que nos dizem «bem-vindo» como se soubessem o que isso significa. Ninguém sabe. Estamos todos a improvisar.

O Peso de Ser Quem Decide

A angústia não é medo. O medo tem objecto — o cão que ladra, a doença que avança, o emprego que vacila. A angústia é outra coisa: é o tremor que sentimos diante de nós próprios, diante da vastidão do que podemos ser e da ausência total de guia.

Sartre descreveu a angústia como a tonalidade afectiva da liberdade. Não é um defeito nem uma doença — é o preço de saber que cada instante é uma encruzilhada sem sinalização. É o vertigem de quem caminha à beira do precipício e descobre que o perigo não vem de fora, mas de dentro: da possibilidade sempre aberta de saltar.

O País Que Se Inventa a Cada Manhã

Há um país que não cabe nos mapas, porque se refaz a cada amanhecer com as mãos de quem decide não se calar.

Indice delle edizioni

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Lettura critica — «A Obra Comentada» (2026)

Lettura critica in terza persona, riprodotta da «A Obra Comentada», il catalogo commentato dell’opera pubblicato dall’autore stesso. Non si tratta di una recensione giornalistica.

Testo originale in portoghese.

Antologia de autor em seis andamentos — A Luta Contra o Tempo, Onde o Árido Floresce, O Mesmo Indizível, Condenados à Liberdade, A Poesia da Democracia e da Liberdade do Espírito e Portugal Democrático —, este volume funciona como corte transversal da lírica de Cerqueira: num só livro, o leitor encontra a meditação metafísica, a poesia amorosa do indizível, o existencialismo de matriz sartriana («condenados à liberdade») e a poesia cívica da democracia. A colecção de abertura, que dá subtítulo ao conjunto, é a mais elaborada: dez poemas em prosa e cinquenta sonetos, organizados em ciclos onde cada prosa gera os seus sonetos-glosa — o método de Poesia Zen e de Perdoar aplicado agora ao tempo, à memória e à finitude.

O primeiro ciclo, «O Grão que Sonha o Deserto», mostra o poeta no seu registo mais próprio: a metafísica do ínfimo. Um grão de areia achado no bolso do casaco contém «um deserto inteiro. Não por metáfora — por necessidade», e a imensidão, reduzida ao grão, «torna-se íntima, quase doméstica». A memória familiar entra sem aviso na especulação: o avô «que nunca saiu de Ponte São Vicente» dizia que cada pessoa tem uma duna por dentro — e o soneto que o evoca fecha com um dístico de antologia: «A duna ficou nele. Ele, em nenhuma.» O vento surge como narrador do mundo — «O vento do deserto não sopra — narra» — e o pensamento como vento que passa pelo sujeito-duna: figura zen da impersonalidade, agora em paisagem alentejana e minhota. O soneto inicial condensa a tese do ciclo num verso: «e o grão é o deserto em cada rota».

As colecções cívicas da segunda metade — Condenados à Liberdade, A Poesia da Democracia, Portugal Democrático — fazem deste o livro em que os dois hemisférios da obra (o contemplativo e o político) coabitam com mais evidência. A liberdade é cantada primeiro como vertigem existencial e depois como conquista histórica concreta, na linha do canto de Abril das Caravelas; a democracia aparece não como arranjo institucional, mas como «liberdade do espírito» — eco directo de O Direito de Pensar. Enquanto antologia, o volume tem ainda um valor documental: mostra que a «luta contra o tempo» do título se trava em duas frentes, a da finitude pessoal (o grão, a duna, o avô) e a da memória colectiva (Portugal democrático contra o esquecimento). No plano da obra completa, é o livro-porta de entrada — quem quiser conhecer o poeta Cerqueira num só volume deve começar aqui —, e a demonstração portátil da tese XVIII: o mesmo homem que mede o mundo pensa-o com o coração no grão de areia.

Citazioni dal libro

  • «um deserto inteiro. Não por metáfora — por necessidade»

  • «O Grão que Sonha o Deserto»

  • «que nunca saiu de Ponte São Vicente»

  • «O vento do deserto não sopra — narra»

  • «e o grão é o deserto em cada rota»

Altre espressioni citate dal libro

«condenados à liberdade»«torna-se íntima, quase doméstica»«liberdade do espírito»«luta contra o tempo»

Fonte: «A Obra Comentada» (Sintra, Julho de 2026) — comentário crítico

Scheda tecnica

Genere
Poesia
Prima pubblicazione
Pagine
345 (edizione in portoghese)
Formati
E-book Kindle · Libro cartaceo (copertina flessibile)
Lingue
1 — portoghese
ISBN
979-8180574916

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