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About the book

Description from the original edition, in Portuguese.

São fachos que querem outra vez
os tachos que hão de perder de vez
quando a malta lhes chegar bem a roupa ao pelo
quando Abril voltar.
— GAC, Vozes na Luta

Este livro nasce do espanto e da indignação. Do espanto perante a roda que nunca se cansa de girar, trazendo do fundo do tempo as mesmas máscaras vestidas de gente nova; e da indignação por ver, à beira da pista, multidões a correr sob a poeira que a carroça enferrujada faz subir das pedras antigas. Os fachos — chamemos-lhes assim, sem rodeios, como lhes chamou o povo no canto duro do GAC — não são personagens de circo apenas: são o circo todo, com a sua estátua de trapos no centro e a sua assistência seleccionada de damas e devotos. Contra eles se ergueram os versos antigos de Ary, de Manuel Alegre, de José Gomes Ferreira, de Sophia, de Manuel da Fonseca; e contra eles se erguem ainda, hoje, os versos modestos que aqui se oferecem. Dez poemas em prosa abrem a porta da praça. Sessenta sonetos, em decassílabos heróicos, atravessam-na em seis ciclos: a carroça do medo, os quatro demónios, as máscaras e os capachos, a memória de Abril, a resistência do povo e a aurora que há de voltar. Não há aqui profecia: há apenas o gesto antigo de quem se recusa a bater palmas ao espectáculo do ódio.

- Hermínio Cerqueira . Sintra 2026
... OLHAI O CIRCO

A poeira sobe da pista quando a carroça enferrujada irrompe na praça antiga. Trazem-na bois de vidro, mas dentro arde uma caldeira de mentiras. O fumo tem nome: Medo. O ferro tem nome: Histeria. O bronze rachado tem nome: Divisão. E nos rebites soltos sussurra a quarta peça — Mentiras, sempre Mentiras, mãe e filha de si mesmas, parindo-se em ciclo perfeito como as serpentes que mordem a própria cauda.

Saltam para o estrado três bonecos vestidos de gente. Sorriem como espelhos rachados. Acenam com mãos compradas em saldo. Por baixo do verniz, vê-se a madeira podre. Por baixo da madeira, vê-se o carcomido. E por baixo de tudo um vazio mineral, sem fundo, onde o eco repete a velha ordem do mando: obedece, cala-te, agradece.

Olhai o circo. Olhai-o bem. Não é a primeira vez que entra em cena, e talvez não seja a última. Mas hoje, à beira da pista, há um menino que não bate palmas. Hoje, na poeira, há uma mulher que não chora. Hoje, no fundo da praça, há um velho que se lembra de Abril — e basta lembrar para a carroça começar, pouco a pouco, a desfazer-se em ferro velho e em vergonha.

...

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Book details

Genre
Poetry
First published
Pages
119 (Portuguese edition)
Formats
E-book · Paperback
Languages
1 — Portuguese
ISBN
979-8194436033

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