Lembro-me do dia com precisão de um relógio quebrado que ainda marca a hora exacta duas vezes por dia. Era um sábado de primavera. A luz entrava pelas janelas com aquela qualidade que os pintores chamam de "ouro líquido". Eu tinha conquistado aquilo que supunha que me tornaria completo: uma carreira respeitável, um apartamento agradável, relacionamentos que fingiam estar bem. E ainda assim, sentava-me nessa sala inundada de ouro e sentia um vazio tão profundo que parecia ter densidade física.
Editorial note
Nature of the text: Prose (first-person narrator).
Source: the book’s editorial description on Amazon (text from the book itself).
Text reproduced without alterations. Original text in Portuguese.
First-person narrator: a literary text (a “personal myth,” according to “A Obra Comentada”), not a biographical account.